Encontro sobre livro “Samurai” gera debate animado sobre a cultura japonesa

8 de julho de 2021

O Clube de Leitura da Apamagis de julho, realizado nesta terça-feira (6/7), começou com uma apresentação do livro do mês, “Samurai”, e de seu autor, Shusako Endo, e terminou com uma conversa animada entre a professora convidada Mina Isotani e os 54 participantes. No bate-papo, foram abordados aspectos sobre a cultura, a história e a literatura japonesa. O encontro durou cerca de duas horas e meia.

Shusaku Endo (1923-1996) é um dos escritores mais cultuados no Japão do pós-guerra e representa uma minoria católica em seu país. Essa característica, como explicou a professora de literatura japonesa, é marcante tanto em sua vida quanto em sua obra.

“Ele tem duas fases primordiais em sua carreira. A primeira é de questionamento, de ser um japonês cristão no Japão e entrar no Ocidente”, disse Mina Isotani, destacando que Shusaku Endo foi um dos primeiros estudiosos do Japão a fazer intercâmbio em Paris no pós-guerra, em 1950. Nessa fase, ele se dedica a falar sobre quem é o japonês, sua identidade e como ela se constrói, trazendo, nessa argumentação, elementos do budismo e do xintoísmo.
“Samurai” é resultado da segunda fase da carreira de Shusaku Endo, quando já existe, no autor, a compreensão da possibilidade de união de culturas e modos de vida antagônicos.

Jornada interior
É justamente por esse caminho que vai a narrativa de “Samurai”. O romance histórico, baseado em uma empreitada do governo japonês para buscar sua inserção no comércio internacional, tem como foco o drama pessoal dos que embarcaram no navio na comitiva de viagem ao México (então vice-reino da Espanha) e depois Roma.

Em especial, fala do samurai do título, Hasekura, e do ambicioso padre franciscano Velasco que irão, nessa convivência, confrontar seus próprios valores. “Não é só um romance histórico”, disse Mina Isotani. “Essa construção histórica faz parte de uma ambientação que ele cria para falar da jornada interna do indivíduo, no caso o samurai do título.”

Poder de descrição
Alguns dos participantes relataram dificuldade inicial com a leitura, como a mediadora do encontro, a magistrada Danielle Martins Cardoso. A juíza disse ter ficado aflita no início, porque a leitura parecia não fluir com facilidade, e cita até a diferença do estilo literário do autor japonês em relação ao que vinha sendo lido no Clube, como os recentes “Lolita”, de Nabokov, e “Memórias do Subsolo”, de Dostoiévski, ambos russos.

“É um livro que várias vezes você pensa em deixar de lado. Não é aquela leitura que já nos arrebata, mas, ao mesmo tempo, eu enxergava tudo o que ele estava escrevendo como se estivesse vendo um filme. O poder de descrição dele é muito grande. Depois, a gente vai se acostumando com o ritmo”, disse Danielle Martins Cardoso.

Segundo Mina Isotani, o estilo de Shusaku Endo pode dar essa impressão inicial, até porque as primeiras páginas têm um ritmo diferente das demais. “O autor pincela aos poucos, por isso a leitura atenta se torna um pouco cansativa. Ele constrói aos poucos, não faz como o Murakami, que vai direto ao assunto”, disse a professora convidada. “Homens Sem Mulheres”, de Haruki Murakami, foi tema do Clube de Leitura da Apamagis em dezembro de 2018.

Ao longo do encontro, foi destacado, por exemplo, o olhar do samurai sobre o cristianismo, que não compreendia a adoração dos fiéis por um sujeito moribundo, e comentado o traço cultural do japonês, que defende o fim honroso da vida – mesmo que pelo suicídio –, porque o que vale é a jornada, e não o fim. Também foi apresentado o porquê de crianças limparem a própria escola. Segundo Mina Isotani, isso já é uma preparação delas para uma sociedade que prioriza o coletivo.

Próximos livros
O próximo encontro do Clube de Leitura da Apamagis, em 3/8, às 19h, será uma celebração aos 140 anos de Lima Barreto, com debates sobre “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”, do autor, e “Lima Barreto – Triste Visionário”, biografia assinada pela antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, convidada do evento. As inscrições podem ser feitas pelo e-mail clube deleitura@apamagis.org.br. Basta enviar nome completo e número de celular. A transmissão será pela plataforma Zoom.

A realização é fruto da parceria da Apamagis com a APL (Academia Paulista de Letras) e com o Ipam (Instituto Paulista de Magistrados) e integra o ciclo de eventos do Departamento Cultural da Associação, cuja programação tem levado o debate sobre arte, cultura e literatura a centenas de magistrados paulistas. Com o apoio da AMB nesta edição, a expectativa é unir juízes de todo o Brasil em torno do tema.

Depois deste, os próximos encontros já estão definidos: “Aos Meus Amigos”, de Maria Adelaide Amaral, com presença da autora, em 8/9, às 19h, e “Os Maias”, de Eça de Queiroz, em 5/10, às 19h, que terá como convidado o escritor Carlos Reis, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de Portugal.

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