Psicóloga Tide Setúbal fala sobre pandemia, importância do Estado e relação da psicanálise com o Direito em palestra
A Apamagis, por meio de seu Departamento Cultural, promoveu nesta terça-feira (22/3) a palestra “Diálogos entre Direito e Psicanálise: A Ética do Cuidado”, com a psicóloga e psicanalista Tide Setúbal. O evento virtual foi transmitido aos associados da Apamagis pela plataforma Zoom.
A palestrante, além de psicóloga e psicanalista, é mestre pela Université Paris V, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, onde integra o grupo de trabalho e pesquisa “O feminino e o imaginário cultural contemporâneo”, e leciona no curso Clínica Psicanalítica: Conflito e Sintoma.
Tide Setúbal iniciou a palestra explicando o conceito de sujeito na psicanálise para mostrar como a compreensão dessas questões podem ajudar os magistrados a entender melhor a sociedade e os indivíduos. “O sujeito da psicanalise é trazido pelo Freud, e o que significa isso? Significa algo muito preciso. O sujeito é um sujeito do inconsciente. Não sabemos tudo sobre nós mesmos ou, como nas palavras do Freud, não somos senhores da nossa própria casa. Essa foi uma concepção que o Freud trouxe, que é revolucionária em termos de pensar o sujeito, o ser humano e traz muitas consequências.”
Esse conceito, segundo a psicanalista, tem total relação com o Direito, pois explica contradições e incoerências dos seres humanos, o que para os juízes tem grande importância em um julgamento. “Essa explicitação de que não somos senhores da nossa própria casa me parece bastante importante no diálogo com o Direito, porque o sujeito da psicanálise não é esse sujeito da razão, da lógica e da coerência, ele é um sujeito que leva a um ponto inconsciente e portanto nós nem sempre sabemos tudo do que fazemos e porque fazemos. existem contradições, incoerências e conflitos cotidianos em todos nós.”
De acordo com Tide Setúbal, outra questão da psicanálise intrínseca com o Direito é a do conflito, tão presente no trabalho da Justiça. “Conflito faz parte do nosso cotidiano e da nossa existência. Muitas vezes indivíduos têm certas ações e sabem que não deveriam fazer, e às vezes nem sabem porque o fizeram. Isso tudo tem exatamente tudo a ver com essa concepção de sujeito.”
Pandemia
A palestrante comentou também sobre a pandemia e como ela afetou brutalmente a vida dos indivíduos e da sociedade em geral. “A pandemia foi um momento inédito pela nossa geração. algo radical e imprevisível. E isso exigiu um trabalho psíquico. A pandemia deixou marcas de perdas irreparáveis, um luto brutal. Trouxe ameaças, sensação de ameaças, isolamento muito longo que deixou marcas importantes.”
Para Tide Setúbal, a pandemia não trouxe apenas problemas individuais, mas sim uma crise do ponto de vista sanitário, inclusive de saúde mental e social. “Além de questões individuais houve questões sociais. A miséria e a diferença econômica ficaram latentes à sociedade como um todo”, diz.
Outro ponto importante destacado na palestra foi o fato de que a pandemia e o isolamento social, ao invés de fazer com que as pessoas diminuíssem o ritmo por estarem mais presentes em casa, tiveram contrário. “A pandemia trouxe um aumento do ritmo de tudo e não uma diminuição. Houve uma aceleração da vida que traz uma redução da vida interior. Um empobrecimento da vida psíquica, o que gera pouca profundidade nas reflexões.”
Tide Setúbal contou que, apesar das questões de saúde física, o que se viu foi um número maior de afastamentos do trabalho por questões emocionais e psíquicas se comparados àqueles ocasionados pelo vírus. “O numero de afastamentos de trabalho aumentou, no entanto a curva se inverteu. O número de afastamentos por questões psíquicas foi maior. Nunca se medicou tanto. Burnout, pânico, insônia, depressão, tudo isso se alastrou muito”, afirma.
A aceleração do ritmo citada pela psicanalista tem como uma das explicações o uso cada vez mais frequente e intenso dos smartphones nas relações de trabalho. “Antes tínhamos uma reunião, havia um intervalo para um cafezinho, se conversa, joga papo. Hoje não, reunião online, uma atrás da outra, sem muita interação real.”
Tide Setúbal ainda explicou o conceito título de sua palestra “Ética do Cuidado” e a relação disso com a pandemia. Para ela a Ética do Cuidado extrapola o cuidar de si e da própria família. Diz respeito ao cuidado com toda a sociedade. “A pandemia nos obrigou a ver a vida no coletivo. Essa é a ética do cuidado: o cuidar de si, mas também o cuidar do outro.”
Importância do Estado
Por fim, a palestrante destacou a importância do Estado no enfrentamento à pandemia, seja pelo empenho dos profissionais do SUS, pelos estudos e decisões de órgãos como a Anvisa, Instituto Butantã, assim como pelo trabalho do Poder Judiciário. “Eu entendo que todas as frentes da sociedade são importantes. Os indivíduos, as empresas, as entidades, mas o Estado é o mais importante. Nada substitui o Estado. A sociedade civil pode ajudar, mas as soluções passam pelo Estado. As pessoas no Brasil tendem a criticar o funcionário público, os concursados, mas as melhores soluções para essas questões passam pelo Estado”, afirmou.
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