ARTIGO: A melhor juíza do mundo
A melhor juíza do mundo
Era assim que os assessores de Mariana a chamavam: a melhor juíza do mundo.
Não era um título oficial. Não estava no Diário da Justiça, não cabia em certidão, não constava em currículo. Era uma dessas verdades afetivas que nascem no cotidiano, entre uma audiência e outra, entre uma sentença difícil e uma conversa rápida no corredor. Era o jeito que a equipe encontrou de dizer que, por trás da toga, havia alguém que não exercia a magistratura de longe.
Mariana era juíza com presença.
Não apenas assinava decisões. Ela se importava. Levava os processos para casa, carregava as preocupações no corpo, atravessava fins de semana pensando em audiências, sentenças, pessoas. Mesmo na UTI, quando ainda acreditava que sairia no dia seguinte, mandou um áudio a um amigo pedindo que ele realizasse as audiências por ela. Não estava pensando no cargo. Estava pensando no dever. Na pauta. Nas pessoas que seriam ouvidas. Na vida que havia escolhido com tanto esforço e que ela levava a sério até quando já não podia mais.
Mariana era intensa.
Desde menina. Nasceu em Niterói e, aos nove anos, mudou-se com a família para Ribeirão Preto. Era a criança dos cadernos, das notas altas, dos professores que elogiavam, da dedicação que parecia maior do que a idade. Mais tarde, cursou Direito na UFRJ. Ao se formar, em 2016, já sabia o que queria: ser magistrada. Era sonho antigo, desses que organizam a vida ao redor — e exigem renúncias que quase ninguém vê.
Mariana abriu mão de muita coisa para chegar lá. Abriu mão de uma vida social mais leve, de fins de semana, de descanso, de planos adiados, de uma juventude livre. Enquanto muitos viviam a vida que se espera de uma mulher tão jovem, Mariana estudava. Repetia matérias, refazia questões, atravessava editais, insistia. Havia nela uma disciplina dura, mas também uma fé bonita: a de que aquele sacrifício tinha sentido.
Mas a história de Mariana não foi uma linha reta até a aprovação.
Entre a formatura e o concurso, ela enfrentou uma depressão profunda. Fez tratamento. Lutou. Recomeçou. Há vitórias que o mundo vê apenas no dia da posse, mas que começam muito antes, em manhãs difíceis, em tentativas silenciosas, em dias em que continuar já é uma forma de coragem.
Mariana continuou.
Em 2020, voltou a estudar com firmeza. Em 2022, passou na primeira fase do concurso da magistratura do Rio Grande do Sul. E foi atravessando uma etapa por uma, até o dia em que tomou posse e realizou o sonho que havia sustentado por tantos anos.
Quando finalmente vestiu a toga, Mariana não se tornou menos Mariana. Talvez tenha se tornado ainda mais.
Foi sozinha para outro Estado exercer o ofício que amava. No Rio Grande do Sul, construiu a rotina da juíza que sempre quis ser: dedicada, responsável, exigente consigo mesma, inteira. Mas a distância nunca desfez seus vínculos. Duas vezes por mês, fazia a ponte aérea para São Paulo para ver a família. Ia e voltava entre dois amores: a magistratura que havia escolhido e a família para a qual sempre retornava.
Mariana se desdobrava para caber nesses dois mundos.
No último aniversário da irmã, em 30 de abril, estava com os seus, mas levou o computador porque precisava fazer uma sentença. No feriado de 1º de maio, trabalhou o dia inteiro. Trabalhou até a véspera do procedimento médico.
Não porque faltasse amor pela família. Mas porque nela tudo era amor em estado de entrega. Amava a família voltando sempre. Amava o trabalho fazendo mais do que lhe cabia. Amava o sonho honrando cada sacrifício que havia feito para chegar até ele.
E Mariana tinha luz.
Não dessas luzes que fazem barulho ou procuram centro. Era uma energia que enchia os lugares naturalmente. Sua presença aquecia os ambientes, movimentava as conversas, deixava marcas nos dias comuns. Há pessoas que chegam e apenas chegam. Mariana chegava e o espaço mudava.
Sua ausência é imensa.
Porque não perdemos apenas uma juíza. Perdemos uma mulher inteira. Uma filha que pegava avião para estar perto. Uma irmã que, mesmo trabalhando, queria participar. Uma colega admirada. Uma mulher que ainda tinha tanto a viver, tanto a construir, tanto a oferecer.
E há, na história de Mariana, uma tristeza difícil de nomear.
Para realizar o sonho da magistratura, ela adiou muita coisa: descanso, vida social, fins de semana, planos pessoais, sonhos íntimos que vão ficando para depois quando uma mulher precisa provar, todos os dias, que merece ocupar o lugar que conquistou.
Quando finalmente começava a abrir espaço para outros futuros possíveis — e decidiu preservar a possibilidade da maternidade por meio do congelamento de óvulos —, foi justamente esse caminho que terminou por lhe tirar a vida.
Há nisso uma injustiça que a linguagem mal alcança.
Mariana se foi quando o sonho profissional havia se tornado realidade e outros sonhos, mais íntimos, apenas começavam a pedir passagem. Partiu quando ainda começava a viver aquilo pelo que tanto lutou.
Não perdemos apenas o que Mariana foi. Perdemos também tudo o que ela ainda seria.
Mariana lembrava, com sua própria existência, que a Justiça não é feita apenas de códigos, prazos e decisões. É feita também de pessoas. De escuta. De responsabilidade. De noites mal dormidas. De uma humanidade que, quando verdadeira, não enfraquece a autoridade: aprofunda.
Seus assessores a chamavam de “a melhor juíza do mundo” porque a viam de perto. Viam a juíza, mas viam também Mariana. A mulher que trabalhava demais, que se cobrava demais, que se importava demais. A magistrada que deixou de ser apenas função para se tornar presença.
Mariana partiu aos 34 anos. Cedo demais. Injustamente cedo.
Mas há vidas que, mesmo breves, não são pequenas.
A vida de Mariana não foi pequena. Foi intensa, luminosa, atravessada por dor, esforço, amor e coragem. A vida de uma menina estudiosa que virou juíza. De uma mulher que enfrentou a própria escuridão e ainda assim iluminou os lugares por onde passou. De uma magistrada cuja humanidade não diminuiu a toga — ao contrário, foi justamente ela que fez de Mariana uma juíza tão amada.
A melhor juíza do mundo, diziam seus assessores. E talvez esse seja o retrato mais bonito: não o de uma juíza distante, perfeita, inalcançável, mas o de uma mulher real, sensível, intensa, cheia de vida, que sonhou muito, lutou muito, trabalhou muito e amou muito.
Mariana deixa saudade.
Do jeito mais concreto, mais cotidiano, mais irreparável que a saudade pode ter.
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