Clube de Leitura da Apamagis debate “Mudar: Método” e percorre a obra de Édouard Louis da infância à reinvenção

8 de abril de 2026

O Clube de Leitura da Apamagis promoveu, em 7/4 um encontro dedicado a “Mudar: Método”, de Édouard Louis, com apresentação de Luisa Tieppo, graduada em Letras pela USP e mestra em Estudos Comparados de Literatura de Língua Portuguesa pela Université Paris-Sorbonne. Antes de chegar à obra escolhida, reconstruiu o percurso literário do autor francês e situou a publicação dentro de um projeto autobiográfico mais amplo, marcado por classe social, homofobia, deslocamento e ruptura com o meio de origem.

A própria Editora Todavia, responsável pela edição brasileira, define o romance como uma narrativa em que “a homofobia, as diferenças de classe e as relações familiares aparecem com uma força a um só tempo dolorosa e bela”, e afirma que o livro acompanha o amadurecimento de Eddy Bellegueule até sua transformação em Édouard Louis, já consagrado internacionalmente.

Origem do conflito

Contextualizando todo o ciclo autobiográfico do autor, Luisa Tieppo iniciou a exposição pelos livros em que Édouard Louis volta à própria infância e à experiência de crescer em uma família operária no norte da França. Esse ponto de partida é coerente com a trajetória editorial do autor. A Todavia registra que Édouard Louis estreou com “O fim de Eddy”, romance originalmente publicado em 2014. Já em “Mudar: Método”, a editora brasileira retoma esse eixo ao afirmar que o livro revisita os acontecimentos de sua infância e juventude e mostra como a distância entre Édouard e sua família e amigos se torna cada vez mais acentuada.

Foi a partir desse núcleo inaugural que a conversa no Clube de Leitura da Apamagis destacou temas recorrentes nas primeiras narrativas: a percepção dura da família, a vergonha social, a sensação de inadequação e o desejo de escapar de um mundo vivido como hostil. Esse conflito aparece de forma estrutural, e Luisa Tieppo afirma que, nos relatos do autor, a homossexualidade e as injustiças de classe são tratadas por meio de uma escrita “honesta e afiada”, enquanto “Mudar: Método” é apresentado como uma reflexão sobre a tentativa de abandonar o passado e sobre aquilo que se perde quando se chega ao lugar almejado.

Violência

Na sequência cronológica proposta no encontro, o percurso do autor avança para obras em que a violência deixa de ser apenas ambiente social e passa também ao plano íntimo e corporal. A passagem é decisiva porque amplia a chave autobiográfica da obra de Édouard Louis: a violência não está apenas na infância pobre e no meio social de origem, mas também nas experiências posteriores que atravessam seu corpo e sua sexualidade.

Esse deslocamento ajuda a compreender um dos pontos enfatizados por Luisa Tieppo, que é a maneira como Édouard Louis passa a perceber o mundo a partir de sua perspectiva homossexual e como essa condição atravessa tanto a vergonha inicial quanto a tentativa de construir uma nova identidade. Na apresentação brasileira de “Mudar: Método”, a Todavia volta a esse ponto ao afirmar que o romance acompanha justamente o processo de amadurecimento e transformação do autor, em uma narrativa em que homofobia, classe e família permanecem indissociáveis.

Crítica social

Depois das obras centradas na infância e na violência, o ciclo autobiográfico do autor se expande para os pais. A formulação narrativa que se segue, fala sobre o movimento de Édouard Louis de transformar a história familiar em leitura crítica da violência social e política.

Esse movimento prossegue em “Lutas e metamorfoses de uma mulher”, definido pela Todavia como o retrato de “uma mulher e mãe que se rebela contra uma vida degradante. Mais adiante, em “Monique se liberta”, a editora brasileira afirma expressamente que o livro pode ser lido como continuação dessa trajetória de libertação e acrescenta um dado central para a indagação levantada no no Clube de Leitura da Apamagis: graças ao trabalho literário com a autoficção, Édouard Louis se vê capaz de ajudar financeiramente a mãe a conquistar uma nova vida, agora sozinha e livre.

Luisa Tieppo aproveita esse momento da discussão para mencionar a pergunta que muitos leitores fazem: “se ele conquistou tanta coisa por conta dessas obras, por que não ajudou antes a mãe?”. A indagação surge porque a obra de Édouard Louis é construída como um grande retorno crítico à família, à pobreza e à violência; ao acompanhar sua ascensão social e intelectual, o leitor passa a enxergar a mãe como figura central desse universo. Mas as editoras indicam que essa ajuda não é omitida nem recusada nos livros posteriores. Ao contrário, “Monique se liberta” explicita que a nova etapa da relação entre os dois se dá justamente quando o escritor, já transformado por sua trajetória literária e pública, consegue oferecer suporte material e emocional para que ela rompa outro ciclo de violência.

Mudar: Método

Foi a partir disso que o Clube de Leitura chegou ao livro em pauta.  “Mudar: Método” acompanha o nascimento de um novo sujeito e, ao mesmo tempo, expõe o custo desse processo, a ruptura com o passado, o afastamento da família, o desconforto diante da própria origem e a tensão entre sucesso, reinvenção e perda. Luisa Tieppo resume o livro como “tanto uma confissão quanto um manifesto” sobre a tentativa de abandonar o passado.

Ao final do encontro do Clube de Leitura, essa dimensão pareceu concentrar o interesse do debate. Mais do que um relato de ascensão, a publicação apareceu como peça-chave de uma obra em que a transformação individual nunca é apenas individual. Em Édouard Louis, a mudança de nome, de linguagem, de classe e de mundo não apaga a origem; ao contrário, faz dela matéria permanente de literatura. E foi justamente esse arco — da infância marcada por vergonha e violência à escrita como instrumento de deslocamento, crítica e reparação — que deu densidade ao encontro promovido pela Apamagis.

 

O próximo encontro do Clube de Leitura da Apamagis será realizado no dia 5/5 (terça-feira) e discutirá a obra “Meia Vida”, de V. S. Naipaul

Para participar, basta encaminhar nome e número de celular para cultural@apamagis,org.br

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